afogados

sabe aquelas lembranças que a gente tem de uma época que nos faz acreditar que seria possível lembrar de algo naquela idade? eu acho que todo mundo tem algumas dessas, aquelas memórias que existem, mas sempre nos questionaremos o quanto daquilo é real e o quanto daquilo é imaginação. das várias visões do passado eu tenho uma que nunca me deixou completamente, mas, ultimamente, ela voltou a pairar sobre mim nos momentos tristes.

hoje não é um dia triste mais do que qualquer outro, mas, pela primeira vez em um bom tempo, essa memória voltou a ocupar minha cabeça. ao ler um texto de uma artista que mora em minha cidade sobre seu encontro com um menino na sua infância que a marca até hoje da mesma forma que a minha lembrança me marca, eu voltei a pensar no meu encontro que eu insisto pensar que é inventado só para toda vez lembrar que é real.

eles morreram afogados. eu não lembro quantos anos eu tinha, eu não lembro onde eu morava. aos nove anos, eu já tinha morado em quatro cidades, nenhuma delas a que eu moro agora. durante toda minha infância, eu estive rodeada de água. piscinas, mares, rios, lagoas. a água estava lá e eu sempre me senti atraída pela água. era um dos meus maiores orgulhos dizer que aprendi a nadar quase ao mesmo tempo que aprendi a andar. não fazia o mínimo sentido se orgulhar de uma tarefa dessa. minha mãe era professora de natação e, desde antes de completar um ano de vida, ela me levava para as aulas dela. eu ficava a beira da piscina e gritava a plenos pulmões “EU VOU PULAR”. quem estava perto achava bonitinho uma criança (um bebê?) tão pequena se aventurando na piscina, ao que comentavam “own, ela sabe já sabe nadar.”. nessa hora minha mãe aparecia desesperada dizendo que não, eu não sabia nadar, e alguém me pegava. foi aí que ela começou a me ensinar, ou, no caso, essa é a história que ela conta.

diante de tanta água na minha vida, eu nunca soube dizer qual era o lugar em que se passava minha lembrança. eu lembro de uma piscina muito azul com um toboágua sem cor no centro e muitos guarda-sóis laranjas, tantos que, quem sentasse nos últimos, teria dificuldade de ver a piscina. o chão era uma pedra amarelo que, pensando agora, me parece escorregadia. quem coloca uma pedra escorregadia em uma piscina? era um clube, mas por muito tempo eu não saberia dizer que clube.

é tudo muito rápido. eu visualizo o clube, o azul, o laranja, o amarelo. depois disso, eu vejo ela. eu nunca soube o nome dela. na minha lembrança, ela usa um maiô azul-marinho-quase-preto; seus cabelos são castanhos-quase-preto, muito lisos, acima dos ombros num corte curto com uma franja reta. ela era mais velha, mais velha que eu na época, ou isso é que eu penso porque na minha visão ela se encontra lá e é mais alta que eu, mas eu não consigo encaixar ela em lugar físico nenhum. eu nunca soube o nome dela, mas ela tem cara daqueles nomes que tem muitos nas salas de aula, sabe? aqueles que terminam em “ana” principalmente. podia ser juliana ou mariana. ela tinha cara de mariana.

primeiro é o clube, depois é a imagem da “mariana” e, por fim, é a multidão carregando o corpo sem vida dela que, em uma piscina lotada de gente, morreu afogada sem ninguém perceber.

eu não conhecia ela, eu não conhecia sua família. eu não lembro de ninguém chorando, eu não lembro de mais nada. eu só lembro dessas três coisas e de como eu me senti. de como eu não entendia como ela tinha morrido se a piscina estava cheia de gente e, se eu que era tão menor sabia, como ela não sabia nadar? para ser sincera, até hoje eu não entendo.

durante toda minha vida, essa lembrança nunca saiu de mim. todas as vezes que voltava, eu ia e perguntava para minha mãe se ela tinha acontecido mesmo. acho que parte de mim queria acreditar que não era real, que era fruto da minha imaginação que já tantas vezes inventou tantas coisas. todas as vezes, a resposta da minha mãe foi a mesma. aconteceu, eu era muito pequena, mas a gente tinha visto, sim, “mariana” morta afogada.

da última vez que essa memória chegou em mim, eu estava desesperada. por motivos nada relacionados com águas, piscinas ou marés, mas apenas tristeza, eu pensei nela. na menina que morreu afogada ao redor de toda aquela gente. eu, que já estava completamente triste, me desesperei ao pensar como era possível uma vida de uma criança acabar sem motivo nenhum enquanto um monte de gente estava lá, mas não observava. da mesma forma como a vida de muitas pessoas está se acabando no meio do mar de outras vidas e todos estão lá, mas ninguém nota. da mesma maneira que eu sentia que estava me afogando e ninguém parecia notar.

dessa última vez, como todas as outras, eu fui e perguntei novamente para minha mãe se essa lembrança era real. as respostas foram as mesmas, mas dessa vez eu continuei e perguntei se ela lembrava em que cidade nós morávamos quando isso aconteceu. minha surpresa foi grande quando ela disse que não lembrava a cidade que nós morávamos na época, mas minha lembrança tinha acontecido aqui, na cidade onde moro, em alguma de nossas férias. ela disse o nome do lugar exato onde isso aconteceu.

na mesma hora eu quis ir lá. eu nunca fui, nem antes, nem depois de saber essa informação. não ia fazer diferença conhecer o lugar onde mariana se afogou. descobrir se o visual da minha lembrança é real ou não não muda o fato de há entre 20 ou 15 anos atrás ninguém dentro daquela piscina ter notado o desespero que aconteceu debaixo daquelas águas. no momento que eu quis ir lá talvez eu achasse isso me salvaria de alguma forma, mas não faria diferença.

eu, por sorte e por minha mãe, aprendi a nadar cedo. queria que mariana tivesse aprendido também.

afogados