desorganizada

Os piores dias são aqueles em que eu não sei o que desejo quando atravesso uma rua. É tão clara a certeza que, um dia, algum daqueles carros vai passar por cima de mim. Me jogar, me esfregar, me arrebentar inteira. E eu não sinto medo. Por que vou sentir medo de algo que é inevitável?

Pra mim, é inevitável que isso vai, algum dia, acontecer. Seria o meu destino ser atropelada por um carro? Talvez, talvez eu seja só mais uma pessoa idiota mesmo. E eu odeio isso.

Eu odeio o sentimento, a certeza, mas o que eu odeio mais é a lentidão do tempo enquanto eu atravesso mais uma rua, olho para o lado e vejo os meus vários possíveis carrascos. Lá no fundo eu escuto uma voz “o seu carrasco é você mesma!” e eu não faço nada. Pra não dizer que eu não faço nada, meus pés se mexem e, mais uma vez, eu consigo chegar intacta do outro lado de mais uma rua.

Emma. Alice. Eu não sou nenhuma das duas, mas eu também talvez seja. Um dia eu talvez chegue perto demais de não acreditar que minha vida é um filme de ficção escrito por alguém. Nesse dia, eu posso acreditar que quem escreve a porra toda sou eu mesma, mas acho que nunca vou aceitar que não, minha vida não é um filme e que tudo não vai ficar bem no final.

Na verdade, eu só tenho dúvidas se o carro que me atropela é culpa do motorista ou minha que me jogo em frente, largando tudo. Eu prefiro acreditar que não faria isso, mas o que é se jogar na frente de um carro pra alguém que quase pulou de uma janela querendo fugir de uma discussão?

Eu nem gosto das histórias quando tudo fica bem no final.

desorganizada

once upon a time

Eu vagava por esta cidade em que eu havia sido destinada a passar a continuação da minha existência. Se eu merecia, eu não sabia. Eu só sabia que eu tinha raiva. Não sabia nem de quem eu sentia raiva exatamente, eu sei que não era justo, não devia ser justo ser condenada a passar os meus próximos 100 anos presa nesse mundo determinada a salvar almas perdidas na tentativa de levá-las para o céu.

Isso é porque eu sou um anjo. Isso mesmo, um anjo. Nós não somos como vocês pensam, então podem esquecer várias conclusões que vocês tiveram quando leram isso. Meu nome é Sori, mas eu não posso dizer para vocês se eu sou homem ou mulher. Isso lhes foi ensinado correto, nós anjos não temos sexo.

Nós, normalmente, não ficamos na Terra. Os anjos que são mandados para ficar por aqui são aqueles que fizeram alguma coisa errada ou aqueles que não estão fazendo seu trabalho direito. Eu não estava fazendo meu trabalho direito, então talvez eu merecesse mesmo isso. Cem anos, durante os próximos cem anos eu teria que frequentar esse lugarzinho desagradável que nenhum de nós fazia muita questão de visitar.

Atualmente, eu era uma mulher de 20 anos morando em uma cidade capital de um país não muito importante, mas importante o suficiente. Como eu não exatamente podia envelhecer e construir uma vida em nenhum lugar, eu me mudava constantemente. Essa era a quinta cidade em que eu fazia meu trabalho e, por mais estranho que parecesse, eu havia encontrado um lugar onde me sentia confortável na medida do possível. Eu passei muito tempo sendo um anjo antissocial, mas hoje eu tinha amigos. Eu não sei dizer porque nunca tive uma, mas acho que esses amigos eram o mais próximo do que já cheguei de ter uma família.

Eu gostava de ser Sori, a mulher morena de 1,64m com olhos e cabelos castanhos. Eu podia escolher qualquer forma física que eu desejasse, mas essa vinha sendo minha preferida. Quando eu completei 15 anos do meu castigo centenário eu me mudei pela última vez e me aloquei nessa cidadezinha e, pela primeira vez, resolvi que não iria mais ser um menino como havia passado todos os primeiros anos. Resolvi também que eu teria 15 anos, a mesma idade em que já havia passado na Terra.

Agora, aos 20 anos, eu não era mais uma menina, eu era uma mulher. O pior de tudo é que um dos castigos impostos era a remoção de várias das minhas memórias da minha vida real. Ficava difícil fazer meu trabalho direito já que eu mal lembrava o que era ser um anjo. O lado positivo é que eu ainda tinha minhas asas e eram elas que me possibilitavam ter meus “poderes”.

Apesar de ser um anjo, minha vida não era muito diferente de uma pessoa normal. Sábado à noite e eu estava fazendo o que qualquer jovem faria: esperando o show de uma das minhas bandas favoritas começar. Isso e procurando a próxima alma que eu teria que salvar. Enquanto eu escaneava o ambiente a procura, foi aí que eu a vi de novo.

O nome dela era Lavernie e eu sabia pouquíssimas coisas sobre ela, mas a principal era que ela era assustadoramente linda. Eu podia ter certeza que seus cabelos e seus olhos mudavam de cor todas as vezes que eu a via. Eu não a tinha visto muitas vezes, mas nas poucas em que vi eu mudei de ideia várias vezes. Hoje, seus cabelos estavam castanhos, mas eu podia jurar que eles eram ruivos da última vez. Hoje, seus olhos eram verdes, mas naquela foto eu tinha certeza que eu vi um tom de azul nunca visto antes.

Ela se aproximou junto com outros amigos meus e tudo, em um instante, pareceu um borrão de cenas translúcidas em um quadro em que alguém acabou de derramar vários tons de vermelho e laranja.

Nós já nos conhecíamos, mas, até esse dia, não parecia real. Enquanto todos conversavam sobre assuntos que eu não conseguia fazer ideia sobre o que eram, nossos olhares se cruzaram três vezes. Eu senti que estava ficando louca porque eu tive toda convicção que, na segunda vez, seus olhos eram mais negros que os meus.

A noite era para ter sido apenas mais uma noite como todas as outras, eu só não sabia como minha vida mudaria quando eu decidi que, não importasse a cor que fossem aqueles olhos, eu os queria para mim de qualquer forma.

once upon a time